Diretores da Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja MT) participaram da missão oficial brasileira ao Reino do Marrocos, integrando a comitiva liderada pelo ministro da Agricultura e Pecuária, André de Paula.
A agenda contou ainda com a participação do embaixador do Brasil no Marrocos, Alexandre Guido Lopes Parola, e de representantes de entidades do setor agropecuário brasileiro.
Representaram a Aprosoja MT na missão o diretor administrativo Diego Bertuol, o 2º diretor administrativo Jorge Giacomelli e o vice-presidente da Região Norte de Mato Grosso, Ilson Redivo. A agenda no Marrocos incluiu o Seminário Empresarial Brasil-Marrocos, em Casablanca, reuniões institucionais em Rabat e visita ao complexo industrial da OCP Nutricrops, em Jorf Lasfar, uma das principais produtoras mundiais de fertilizantes fosfatados.
A participação da Aprosoja MT teve como objetivo colocar Mato Grosso no centro das discussões sobre segurança de abastecimento e competitividade dos fertilizantes. O estado é líder nacional na produção de soja e milho segunda safra, além de liderar o consumo brasileiro de fertilizantes e possuir elevada demanda por fontes fosfatadas, fundamentais para a construção e manutenção da fertilidade dos solos do Cerrado.
“Para Mato Grosso, essa discussão é estratégica. Somos líderes nacionais na produção de soja e milho segunda safra e temos uma enorme demanda por fósforo para manter a fertilidade e a produtividade dos nossos solos. A presença da Aprosoja MT nesta missão teve justamente o objetivo de demonstrar a dimensão dessa demanda e aproximar quem produz de quem possui capacidade para fornecer um insumo tão importante para a agricultura brasileira”, destaca o diretor administrativo da Aprosoja MT, Diego Bertuol.
Memorando amplia perspectiva de segurança no abastecimento
Um dos principais resultados da missão foi a assinatura de um Memorando de Entendimento entre o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) e a OCP Nutricrops.
O documento estabelece como referência o fornecimento de 3,8 milhões de toneladas de fertilizantes fosfatados ao mercado brasileiro no período 2026/2027, ampliando a perspectiva de disponibilidade do insumo em um momento de incertezas no mercado internacional.
Para a Aprosoja MT, o avanço é relevante diante da elevada dependência brasileira de fertilizantes importados. A diversificação de fornecedores e a construção de relações comerciais de longo prazo podem trazer maior previsibilidade ao abastecimento e reduzir a exposição do produtor às oscilações externas.
O entendimento também abre possibilidades de cooperação que vão além do fornecimento de fertilizantes, envolvendo pesquisa, caracterização e saúde dos solos, soluções de nutrição vegetal, inovação, agricultura de baixo carbono, capacitação técnica, logística e armazenamento.
Relação de troca ainda pressiona o produtor
A maior segurança de abastecimento ocorre, entretanto, em um momento no qual a capacidade de investimento do produtor rural está pressionada.
Apesar do recente movimento de recuo dos preços dos fosfatados no mercado brasileiro, a relação de troca continua desfavorável ao agricultor. Em Sorriso (MT), uma das principais referências da produção de grãos do estado, a relação de troca do MAP permanece 22,4% acima da média histórica.
O cenário contrasta com o cloreto de potássio (KCl), cuja relação de troca está atualmente 4,5% melhor que a média dos últimos quatro anos. A condição mais favorável já começou a estimular em Mato Grosso as primeiras negociações antecipadas de KCl para a safra 2027/28.
“Isso demonstra que não podemos analisar apenas o preço nominal do fertilizante. Precisamos olhar para o poder de compra do produtor. O MAP pode estar recuando, mas ainda exige uma quantidade de soja superior ao padrão histórico para sua aquisição. Ao mesmo tempo, o crédito está caro e mais difícil de acessar e os preços da soja e do milho ainda não proporcionam margens que deem segurança para manter o mesmo nível de investimento”, afirma Bertuol.
A Aprosoja MT já observa entre seus associados maior cautela na aquisição de fertilizantes e redução dos investimentos em fertilidade diante das dificuldades econômicas acumuladas nas últimas safras.
“Temos produtores reduzindo investimentos em fósforo para adequar o custo da lavoura à capacidade financeira da propriedade. Isso nos preocupa porque, quando se reduz fósforo por uma limitação financeira, não estamos discutindo somente o custo de uma safra. Estamos falando da construção da fertilidade do solo e do potencial produtivo dos próximos ciclos. Mato Grosso levou décadas investindo em correção de solo, fertilidade, tecnologia e manejo para alcançar os níveis de produtividade que temos hoje”, ressalta.
Maior oferta pode contribuir para equilíbrio do mercado
Para a Aprosoja MT, a diferença observada atualmente entre os mercados de MAP e KCl demonstra como uma relação de troca mais favorável pode mudar as decisões de investimento dentro das propriedades.
“É um exemplo claro do que buscamos. Quando existe oferta, previsibilidade e uma relação de troca economicamente viável, o produtor volta a antecipar compras e consegue planejar melhor as próximas safras. É justamente esse um dos resultados que esperamos do memorando firmado entre o Governo do Brasil e a OCP: uma sinalização de maior disponibilidade de fertilizantes fosfatados para o mercado brasileiro, trazendo mais segurança ao abastecimento e maior previsibilidade para o produtor”, destaca Bertuol.
Segundo o diretor, a perspectiva de maior disponibilidade ocorre justamente em um momento em que o mercado sinaliza uma demanda mais cautelosa por fósforo no próximo ciclo.
“Estamos diante de um cenário que indica uma demanda mais retraída por fósforo, justamente pela perda de poder de compra e pela redução dos investimentos que já observamos no campo. Se tivermos, de um lado, uma perspectiva de maior oferta e, de outro, uma demanda mais cautelosa, podemos caminhar para um mercado mais equilibrado e para uma melhora na relação de troca. Isso é importante porque não queremos que o produtor deixe de aplicar fósforo; queremos que ele volte a ter condições econômicas de investir. Segurança de abastecimento é fundamental, mas precisa vir acompanhada de competitividade e preços que tornem viável a retomada dos investimentos em fertilidade nas próximas culturas”, conclui Bertuol.
Missão fortalece diálogo entre Aprosoja MT e Mapa
Além dos avanços comerciais, a participação na missão reforçou a aproximação institucional entre a Aprosoja MT e o Ministério da Agricultura e Pecuária.
A entidade avalia positivamente o espaço de diálogo construído com o Mapa, sob a liderança do ministro André de Paula, especialmente diante do momento de dificuldades econômicas e financeiras enfrentadas pelo setor produtivo.
Para a Aprosoja MT, manter um canal direto entre o Ministério e as entidades representativas dos produtores é fundamental para que a realidade dentro das propriedades seja considerada na formulação das políticas agrícolas nacionais.
“A agricultura brasileira atravessa um momento que exige muito diálogo. Temos produtores enfrentando margens apertadas, crédito caro e restrito, custos elevados e dificuldades para manter o nível de investimento dentro das propriedades. Encontrar no Ministério da Agricultura abertura para ouvir quem está na ponta é muito importante. Temos conseguido construir com o ministro André de Paula um diálogo saudável, levando as preocupações dos produtores e buscando soluções para o setor”, destaca Bertuol.
Segundo o diretor, essa aproximação contribui para fortalecer a interlocução entre a política agrícola nacional e a realidade econômica enfrentada pelo produtor.
“O Ministério da Agricultura carrega uma enorme responsabilidade na representação de um setor fundamental para o país. Neste momento de dificuldade, precisamos de uma Pasta presente, com capacidade de diálogo e comprometida em compreender a realidade do campo. É essa representatividade e esse compromisso que esperamos fortalecer junto ao Mapa”, completa.
Aprosoja MT defende comércio de mão dupla com Marrocos
Durante o Seminário Empresarial Brasil-Marrocos, em Casablanca, a Aprosoja MT também defendeu o aprofundamento de uma relação comercial de mão dupla entre Mato Grosso e o mercado marroquino.
Enquanto o Marrocos possui grandes reservas de rocha fosfática e uma indústria de fertilizantes de escala mundial, Mato Grosso reúne capacidade produtiva para ampliar sua participação no fornecimento de alimentos e matérias-primas ao país.
O milho demonstra a importância dessa complementaridade. No último ano, Mato Grosso exportou aproximadamente 1,37 milhão de toneladas de milho para o Marrocos. A cada quatro toneladas do cereal brasileiro destinadas ao mercado marroquino, aproximadamente três tiveram origem em Mato Grosso, demonstrando a relevância do estado para o abastecimento daquele mercado.
A entidade também chamou atenção durante o seminário para o potencial do farelo de soja. Diferentemente do milho, que já possui participação expressiva nas exportações mato-grossenses ao Marrocos, as compras de farelo de soja vêm apresentando redução ano após ano, cenário que demonstra espaço para trabalhar a recuperação e ampliação desse mercado.
“Defendemos no seminário uma relação de complementaridade. Mato Grosso já é um grande fornecedor de milho para o Marrocos e temos capacidade para avançar também no farelo de soja e em outros produtos. Ao mesmo tempo, o Marrocos é estratégico para nós no fornecimento de fosfatados. Queremos construir uma relação de longo prazo, na qual possamos ampliar mercados para aquilo que produzimos e, do outro lado, aumentar a segurança e a competitividade dos MISSÃO MARROCOS – MAPA | 3insumos de que precisamos para produzir”, afirma Bertuol.
Para a Aprosoja MT, essa complementaridade pode construir uma relação comercial duradoura entre Mato Grosso e Marrocos, combinando abertura de mercados para a produção agropecuária brasileira com maior segurança no acesso a um dos insumos mais estratégicos para a agricultura do estado.
A missão também reforça a importância de Mato Grosso participar diretamente das discussões internacionais relacionadas aos insumos e mercados estratégicos para o agronegócio. Para a entidade, diversificar fornecedores, ampliar destinos para a produção, melhorar a relação de troca e fortalecer o diálogo institucional são caminhos fundamentais para devolver previsibilidade ao produtor e criar condições para a retomada dos investimentos em fertilidade, tecnologia e produtividade.


















